à eterna vontade de fazer sobrepõe-se
a falta de jeito,
a ausencia de arte,
o nulo sacrifício
e a eterna preguiça.
não há volta a dar,
o que na cabeça soa lá,
na prática é um dó.
à eterna vontade de fazer sobrepõe-se
a falta de jeito,
a ausencia de arte,
o nulo sacrifício
e a eterna preguiça.
não há volta a dar,
o que na cabeça soa lá,
na prática é um dó.
A lingua presa do feito e refeito,
do já está e não volta.
Sempre o fim, e do fim e ao cabo,
que deixou estreito, feito e refeito,
a alternativa de fazê-lo melhor.
Do foi e não foi, fui o grande imperfeito
que esqueceu o malfeito
e vive, por defeito, infeliz e melhor.
Do salto maldito, do dia perdido,
da viagem do engano,
do engenhoso plano
de ter uma vida que se pensa maior.
Esperando o final, em aberto despeito,
escolhido por outros, em aberto rancor.
O erro está feito, e dentro do peito
carrego o defeito de não ser pior.
atirei-me de olhos abertos
chorei no caminho, o vento a bater na cara como minúsculas agulhas
lâminas que separavam a pele dos músculos e os músculos dos ossos
vi o fim chegar, toquei-lhe com a ponta do nariz
tão perto que o cheiro da calçada molhada
e do sangue derramado
nunca mais me largou
com o cheiro a terra molhada, relembro as largadas de toiros ("à moda de pamplona") que a infancia levou, entre dores de barriga por comer tanto tremoço, enquanto se espreitava uma nesga do boi por baixo da paliçada construída para o efeito. e é por isso que os meus amigos, que são tão amigos meus como dos animais, não compreendem porque não os acompanho em marchas inúteis e verdes palavras de ordem.
Entupimento.
respiração off
gant.
sobram dores dobradiças.
Escarros e escaras.
peito preso preso peito
preito peso peso preito
é o que faz a medicação em conformidade,
tanto para isto como para aquilo.
Hoje a rádio ajuda
O miúdo abandona aos poucos a razão e estala compassadamente os dedos enquanto o velho Dean Martin canta sobre miúdas de azul.
erguemos o copo e emborquemo-los de uma só vez em honra do velho crooner
de que vale ter ídolos se não lhes fizermos um brinde de vez em quando?
Lança-se no ar agora uma versão do My Funny valentine sem nos levantarmos da cadeira.
Na esplanada, uma mulher também escreve. Nunca a vi por aqui nem a vejo hoje, os chapéus de sol fechados intrometem-se no meu campo de visão - vejo-lhe as pernas e os braços a debitar para um caderno igual ao meu. Talvez esteja a descrever-me como eu tento fazer. Ou esteja só à procura de uma razão para estar ali. tal como eu.
Cantamos para dentro enquanto o cigarro chega ao fim - está demasiado frio para enrolar outro, apesar de ter no bolso um maço dos outros, enrolados em máquinas infernais de fumo e enxofre.
A moça fala agora ao telefone e diz que tem as mãos geladas "devia ter trazido as luvas, amor"
O amor, pelos vistos, concorda e roga para o seu regresso. Todo o amor regressa quando tem frio.
O simpático trio do iludido e as duas miúdas lá foram fumar o charro às escondidas,
mesmo no meio da clareira do parque.
(Há dias em que, fora da esplanada, na varanda de casa, os vejo em ginásticas normais e tendas humanas
tentando evitar que o vento lhes sopre o resto do entorpecimento para o chão)
As mulheres bonitas (pelo menos uma delas já sei que o é)
estão atrás de mim a estudar, ou a ler
ou hoje sou eu a ser observado
figura (ridícula) de preto,
com as sapatilhas da moda
e as mãos geladas que debitam gatafunhos que só eu entenderei.
Dessa forma, ninguém perceberá as paranóisas e descrições,
ficando mascaradas de textos indecifráveis
que, depois em casa, eu tento perceber -
como se fosse um autor com substancia e não fosse também um iludido.
(mas que nunca gastaria duzentos paus em uisqui com duas fedorentas)
A outra mesa está ocupada atrás de mim, não as vendo, oiço-as.
A certa altura, uma levanta-se e vai ao balcão,
lembrando-me de que gosto de mulheres que, mesmo no inverno, sabem que são boas e não têm medo de o mostrar,
mesmo que os mamilos estejam sempre espetados com o frio.
Para meu alívio, ao vê-la assim, a pele esticou e o sangue afluiu para a extremidade correcta.
Tudo normal, como dantes,
Duas mesas ocupadas na esplanada que de agradável tem o facto de ser a 13 passos da porta de casa,
mas que não disfarça o frio que se faz sentir.
Ouvimos a rádio mal sintonizada, comercial, catadupa de temas vazios de qualidade musical.
Será mais interessante ouvir as conversas das mesas ao lado
o miúdo a querer impressionar as miúdas que o acompanham embevecidas,
ouvem (ouvimos todos) como o rapazola gastou duzentos e sessenta paus
em uisqui velho, só porque o Nelinho chamou as gajas mesmo fedorentas lá para a mesa deles
naquela noite.
Com esta conversa, o pau dele cresceu um centímetro
e as miúdas só pensam na quantidade de dinheiro que
as fedorentas ganharam com um iludido.
a quem puder, (e só tu sabe que podes)
um escritor fantasma de noites adulteradas
e vidas feitas de olhos semicerrados.
Deixa o teu umbigo e vê a vida dos outros
que, pela tua pena, morrem lentamente.
Se cada dia é o dia novo
e temos que espremer limões
para fazer dinheiro e
comprar morangos
rio-me da lembrança de puto
em que cada dia era vivido
com a urgencia de
que fosse passado.
ai ai como eu gostava
de escrever como o godinho
meter as palavrinhas
com muito cuidadinho
todas juntas e certinhas
para que houvesse
algum sentido nisto.
Numa sala fechada, em que todo o mundo vê o que eu vejo,
o ridículo que se torna respirar
e viver entre golfadas de ar
é cada mais óbvio.
As pessoas passam à minha volta,
e gostam de me atirar amendoins metafóricos,
afinal, sou o animal favorito que todos odeiam,
preso, em observação demente.
Respondo como deve ser,
espalhando fezes pelas paredes
do quarto.
Frequentemente, é só o que querem ter
para os preencher.
Ocasionalmente, uma cabriola
de uma vida passada
que os faz rir enquanto apodreço.
Mas o meu vazio, o vácuo, o
grande buraco no peito, eterno,
torna-se assim mais difícil de preencher,
por essa peça, única,
orgão vital que foi perdido entre brincadeiras
de olhos fechados e cabeça entorpecida.
Este invólucro de ar, gás, fezes
e desdém pede esse mesmo ar, só esse,
que me comprime há demasiado tempo
pela sua ausência, sorvendo vida
entre inspirações e expirações.
Mas tudo isto se passa dentro.
Quem me vê
tenta perceber, entre o suor das virilhas
que lhes dou a cheirar,
como continuo a querer viver.
Tento que percebam, animal que sou,
com bostas de pontaria certeira,
o que é primário.
Nego-me, assim, a rasgar o peito em dois.
Apertado entre os teus dedos,
um cigarro debatia-se devagar
consumindo-se por dentro
enquanto os teus lábios
não o beijavam até ao fim
Deixaste-o arder,
enquanto o olhavas
com um olho sorridente
e o outro meio fechado pela mão que sustinha a face cansada,
essa linha laranja de fogo e fumo transformar-se
num rápido vaticínio de morte.
Puxaste um trago de fumo azul
rapidamente expelido pelas narinas
adormeceste no café
enquanto os dedos te queimavam
Nem isso te acordou
Nem quando te levantaste
desprezando as moedas
com que compraste o tempo
necessário para um cigarro morrer
apertado entre os teus dedos,
continuaste a dormir.
Enquanto suas excelencias, americanas, ruminam como americanos que são,
que podiam ser portugueses ou chineses,
ruminariam de igual forma
sobre a burocrática hipótese de,
eventualmente,
considerarem
como exequível
a possível entrega
em mãos,
sujas,
de uma caixa do que podiam ser
bolos ou cartilagens,
armas ou vinho
embalo, por meio momento,na banda sonora perfeita para o meu acidente mortal, "i've read the news today, oh boy" pam e já está, chapa retorcida e corpo rasgado, a que sempre foi inútil massa cinzenta ensopada nos estofos baratos, sem direito às memórias como nos fimes porque essas coisas acontencem nos filmes para que nós nos iludamos com o Sentido Maior do que é posto na terra e inspirado e respirado milhões de vezes até o deixar de fazer, mesmo que o faças com muita vontade de fazer as coisas que queres fazer, muito boa que a banda sonora seja, és surdo no momento em que a vida é esta e só esta e nunca será filme ou história digna de conto, ou nota de rodapé de pacote de açúcar, o corpo, rebentado como exoesqueleto de insecto pressionado entre o polegar e o indicador, se solta como 4 pianos em uníssono numa grave nota, soada até à asfixia
ruminaram e decidiram
os burocratas do lucro
que me permite respirar mais um dia
enquanto embalo, por meios momentos,
na minha morte.
conduzo e o disco acaba.
navegas na tua vontade
de acreditar que tens razão
e de que sou como tu
queres acreditar que sou
esqueces-te que a tua
razão
é só tua
e está tão certa
quanto a força com que
convences o mundo
de que está certa
pergunta-me mais coisas
e estende mais rasteiras
(respondo-te como
responderia
a quem me quer bem)
adapta, corta e
tenta convencer-te
de que o que fazes
está certo
quando sabes que
a tua vida é inútil
como tu
talvez a memória
não seja tão fraca
como pensas
e talvez
as proporções
não sejam as desejadas.
Habitua-te a ela,
seja a puta da vida
ou a vida de puta
Invejo-te a persistencia
e o olhar vazio
com que trespassas
quem nunca acreditou
em ti
pálpebras pesadas
a meio do dia
pela lei da gravidade
já trabalhadas, egoísticamente,
alías, defeito de antanho,
como tudo o que me gere,
tudo o que me rodeia
e o que
é meu
meu meu
eu
eu
eu
eu
essas foram um dia levantadas,
foi um arcar de sobrolho apenas,
o suficiente para espreitar
o que vinha lá
e me sorria com tanta força
sem, desta vez, se rir de mim,
talvez tivesse sido o suficiente
para despertar
como se fosses
tempestade tropical
ou mesmo um vento fresco
que, naquele dia, me levantou
e rodopiou no ar, sem
bater com os pés no chão
e eu subi
e eu
e eu e eu
agarrei-me a ti
pensei que eu
não pudesse ser só
eu,
e juntos,
contraciclo
e tensão corrente,
saíssemos a
correr e voltar a
parar
respirar
olhar, de olhos bem abertos,
o vento que se tornou
parede à minha volta.
Agora, sem poder tropeçar
nem descansar
corro todo os dias
o teu ar fresco, que me acordou,
mantém desperto
cerca-me, revoluto,
enquanto corro, todos os dias
no olho do furacão.
sei que não sou zero por muito pouco,
e que pelas matemáticas pessoais dos afectos
divididos em fornecedores,
colaboradores e consumidores,
faço parte destes últimos
(e dos outros todos também)
sem estornos nem estorvos
sem dádivas nem recibos
desconto o pesar imposto
(sempre a contra-gosto) à tua
conta corrente viciada
fossem economizadas
as lágrimas que
rebentam as escalas
fossem feitas contas
de cabeças levianas
ou, sobretudo, humanas
fosse poupado o esforço
de debater o preço a pagar
para manter esta
empresa do viver
fossem evitados os erros
de querer crescer sem
saber gerir
o que se tem
fosse tudo isso feito,
(e seria pouco)
e esta crise,
de boca cheia crise,
seria passageira
e eterno seria o lucro,
teu, meu, nosso.
nunca a matemática
foi tão certa
como no dia em que fizemos
contas de cabeça
e,
noves fora nada,
nesse dia
todas as aritméticas
resultavam num um mais um
que era sempre igual
a um e ao outro
Quando te escrevemos,
sempre em quarta pessoa,
não será porque sejamos mais do que
um
mas porque o um
nunca se sente tão
sozinho
como quando te
escrevemos.
rio-me. escarneço de ti.
desculpa, talvez queiras que
soletre ou que te dê
uma definição da tua propria
ignorancia?
Tal como ignoras
a tua falha mental,
menos que doença
e pouco mais que
animal
ignoro-te, imbecil.
porque te falta a coragem
porque te falta a força
porque não passas de uma coisa
coisinha
minuscula
insignificante
como um pedaço
de estrume que se solta
de uma roda
e que passa a ser
parte de um asfalto
todos os dias pisado
por quem te passa por cima.
percebes agora?
queres uma foto?
talvez de camara escondida?
o olho magnético do
imbecil unicéfalo
que te tornaste
revelou a tua falha.
talvez um dia te arrependas, talvez não.
pensa nisso
quando olhares para cima
e te aperceberes
que nunca foste nada
e sempre viveste a vida
dos outros
o que interessa é explicar
que a merda escorre
naquele sentido
do público
sanitário
altivo e
embevecido
com a sua própria
estupidez
Entre um cigarro e uma cerveja
vejo sempre as vizinhas
enquanto conversam
sobre o tudo e do nada
sobre tua vida disfarçada
entre dentes
e da vida dos outros também,
e de quem partiu para a outra,
coitado,
réplica imediata que
coitados somos nós
Que se sentam no café a espalhar a notícia
Da vizinha e do preço das coisas
E eu que envelheço enquanto vejo
o vosso tempo gasto em cinzas.
Pois esse, bebo-o eu,
Com um brinde macerado
em arrependimento
quando penso no tempo
que perco a ouvir
as conversas das vizinhas.
Não, não durmo
não estou intoxicado
nem sou tão estúpido
que não te leia.
Vejo o que fazes e
oiço o que dizes quando
julgas que durmo.
sabes do que falo,
não preciso de ser directo
nesta cenografia do engano
por isso escrevo dúbio
e rasgo a minha vida
em três
adivinha qual tu és.
já partiu.
a pólvora subiu pela garganta,
numa corrida espiral
em memória de amargos
de boca e fumos azuis
que sobem e rasgam
a nuca,misturando-se
em quantidades de
exactidão culinária
de sangue e escalpe
e a vontade final de
deixar por dizer
o que te
olho em volta e todos vêem o mesmo que eu,
dentro dum pensamento que se mastiga e me corrói
repetido em filme surdo mudo e manco
sem direito a legenda ou explicação,
estático em evolução ou argumento,
apenas com um desconforto
como introdução.
Ampliando-se em vórtice
neste aleatório momento preciso,
rasga, a pouco e pouco, o tendão
do grego que nos lembra
das fraquezas humanas
e em proporções divinais,
multiplica a sede que me afoga,
esperneando por demorar tanto tempo
a tomar o seu devido lugar
A estátua desfaz-se enquanto
a orquestra desafina.
Assim, atinjo a perfeição
sem nunca ter existido.
não me vendam histórias
embrulhadas em factos de jornal
não me atirem areia
para os olhos
com provérbios berberes
Não me tentem impingir
metafísicas de chocolates
nem profetas bastardos
velhacos da parte da mãe e
ignorantes da parte do pai
não tentem.
eu agradeço e não me julguem ingrato
ou umbilical
respeito a vossa maldade
assim como respeito a minha vontade
(ou vice-versa, nunca sei)
Não falem, não olhem,
não respirem no meu pescoço
não me queiram, não me
façam nem o bem nem o mal,
eu rezo a mim para que o dia acabe.
"será, então um problema. disse grave, a voz afectada de certezas e livros estudados, um problema de difícil solução. a firmeza das palavras
rapidamente se fragmentou como dentes de leao na cidade, desaparecendo para nunca mais ser vista."
(aguiar em criação)
Experimentas a inércia quando corres
e não consegues parar.
Quando te jogas contra paredes desse corredor apertado,
para tentar abrandar o corpo descontrolado
que não ganha nem perde velocidade
(dois muros, lado a lado
e a terra e o céu em seus deveres primordiais),
trotando rodeado de silvas e mato
que te vai rasgando a carne.
aí sim, podes falar de inércia,
quando a velocidade do teu corpo em movimento é inalterada,
mesmo se te largam fogo
ou tropeças sem cair.
Tudo o resto é preguiça.
adérito inapto fazia jus à sua graça,
sempre fito, sempre de fato,
corria junto ao caixão
no desfile do enterro
a solenidade obrigasse
que o falecido fosse chorado
mas adérito cuidava,
sempre afoito, fato inteiro,
que trabalho, quando surgisse,
só no fim estava feito.
viúvas e filhas chorosas
olhavam-no de lado
e bem vistas as coisas,
as outras também
mas adérito sorria
e que o que mais lhes apetecia
era mandá-los a todos
para o mesmo buraco.
adérito sorria porque sabia
que, enquanto cá andasse
os ia enterrar a todos.
e mesmo quando ela surgisse
de surpresa, como já tinha visto
e enterrado,
todos iriam pensar
em que vai enterrar
o adérito inapto
"A mó do moinho,
Sentas-te ali
E está fresquinho"
(P. Águas)
Alma morta
Noutro dia primeiro
Abriu os olhos e chorou
....
Quatro vidas
Depois da primeira morte
Somou as restantes e sorriu
...
Sôfregos tempos,
os de termos sozinhos
as respostas
Aquele restaurante chinês?
Que tinha um cozinheiro velhote?
De facto, fazia comida bem saborosa.
Mas nunca nenhuma me soube tão bem
como na semana depois da sua morte.
A serpentina
apercebeu-se que não era serpente
mas sim um ente de papel, sem vida
que já tinha girado e rodopiado
até cair num chão molhado.
arrumo os rascunhos às escuras
com as obtusas brisas raras
sopradas pelas janelas
habituo-me, aos poucos,
ao novo brilho das letras debaixo dos dedos e descrevo
o que vai ser mais um
se fosses um grão de areia,
ter-te-ias alojado no meu olho.
e para te expulsar da minha visão,
irritado com tamanha maçada que me impede de vislumbrar
em grande e em pequeno, em três dimensões e tudo o mais,
ignorei as senhoras, médicas do saber feito, que me incitavam
para que lave a vista com soros
e outras gotas e mezinhas com as águas que curam os males da visão.
teimoso que sou, na minha própria estupidez,
esfreguei-te e provoquei uma infecção.
agora, tudo o que vejo passa primeiro por ti
rumina mecanicamente
o senfim industrial
que separa a uva do engaço
rumino o dia banal
e separo o acessório
do sumo que irei beber
com isto, não quero
encontrar semelhanças em processos
tão diferentes como o desengaço da fruta
e o desembaraço das compras
a fermentação da uva
e o acumular de sombras
mas quero acreditar
que, no fim do dia,
acabamos os dois
cheios de vinho
será a subtileza muleta
do vernáculo necessário
ou o vernáculo um instrumento,
de quem nada sabe e tudo quer?
esse nojo com que observo
em frente à igreja da vila
os jovens que, parados,
só pensam no pecado,
deixando escorregar as mãos inadvertidas
para as tetas da catequista,
só é ultrapassado pelas cervejas contínuas
que surgem na minha mesa,
chegando a brindar aos avanços pré-puberes
de um qualquer galifão
destinado a tirar os três
a quem os quer convencer
que foi um deus que os fez
abram-se os diques e afoguem-se nas ilusões,
concentrem-se em ramos flutuantes de duvidosa solidez
apertem as pedras contra os bolsos e abram a boca sem falar
percorram os rápidos contra as rochas ocasionais
que nos quebram os ossos ao arrastar
o corpo sufocado pela massa que o envolve,
que nos sufoca o pensamento
recorrente de que o fim não é o fim o fim não é o fim o fim não é o fim
e os ossos que se partem pelo caminho já não doem tanto assim
e quando o fim chega ao fim, não é mais do que um outro salto de cascata
que nos quebra mais um pouco até não haver o que quebrar
até seres disforme mistura de água, corpo e mente
até deixares de ser o que alguém sente
até deixares de ser e seres parte do que é toda a gente.
quem é que engano?
foram crimes de antanho, tentativas frustradas
de roubar e sair com vida de um
buraco fundo, tão fundo como o céu.
quem, lá de cima, espreita para o teu umbigo
com um interesse desmedido e
abre o postigo para te deixar entrar,
é o mesmo que te oferece
com desprezo dedicado
um pontapé disfarçado
de abraço salutar
quer a criatura escrever e a mente não a deixa escrever. não é bem não "deixar", pois a mente não a impede de nada. está aqui a folha de papel e a caneta, agora escreve - diz-lhe ela. mas diz num tom trocista porque sabe que a criatura não vai escrever. a criatura só escreve quando a mente está distraída com outras coisas, de somenos importância, seja a fazer contas à vida, as eternas contas de sumir, seja a carpir imaginárias mágoas, sim, que esta mente, verdade seja dita, é pródiga em imaginar mágoas, certezas e dores de alma. nesses momentos em que a mente tem os olhos revirados para dentro, a criatura escapa-se para o cubículo escuro e escrevinha, rapida e ferozmente, para melhor aproveitar todos os momentos. mas, nesta altura, nestes últimos dias, a mente anda desperta, aberta, atrevo-me a dizer que anda contente? . e a criatura, deixada à solta, no meio do cubículo e das folhas brancas, dos rascunhos iniciados e das obras inacabadas, nesse cubículo onde a claridade dos dias de verão teima em começar a entrar, não tem vontade de escrever. para a criatura, a opressão é a melhor semente para a criação. Talvez um dia ela escreva sobre isso.
Era capaz de me habituar à sua peculiar insegurança de mulher cheia de força, daquelas forças interiores que são postas à prova das maneiras mais injustas possíveis. Era capaz de me habituar ao seu cheiro, sempre bom. Era capaz de me habituar à sua inteligência, perspicaz, à sua adulta meninice, às nossas contradições, asquerosamente fofas, sem as quais aprendi a viver e sem nunca perceber a falta que me faziam, até a conhecer. Mais do que as vidas passadas, descobri uma nova vida. e sou capaz de me habituar a ela.
Foi uma sequência de acontecimentos que ainda tentámos explicar mas, contrariamente ao que é a nossa natureza em sociedade, magneticamente, fomo-nos aproximando. baixámos as defesas.
e ainda bem que o fizémos.
ele está apaixonado de novo. como se nunca tivesse tido antes, apesar de saber reconhecer os sintomas e a estupidificação natural que sofrem as pessoas que padecem desse estado. o próprio termo "apaixonado" dava-lhe vómitos até determinada altura. mas, quando ele fala com ela, todos os maneirismos, tom de voz, aquele sorriso estúpido na cara, todos os dados indicam que, claramente, está (blhék) "apaixonado". e depois, tentar definir por uma série curta de palavras é uma tarefa ingrata, sobretudo para quem está numa situação em que a sua própria inteligência é questionada. é que nunca, em condições normais, se fala com outra pessoa como se ela fosse uma criança e nós seus companheiros de recreio, a não ser que sejamos, efectivamente, crianças no recreio. e, mesmo assim, terão de ser crianças como nós fomos, porque as crianças de hoje são tudo menos crianças, parecendo-se uns mini-adultos, mas mais burrinhos (ou só com menos experiência de vida). mas são cínicas, falsas e más. mini-adultos, portanto. mas, apaixonados, entramos numa estupidez natural, numa inocência tal que, facilmente, damos o corpo ao manifesto, caímos alegremente e nem sequer notamos. vamos por uma encosta abaixo e começam-nos a falhar os pés e a qualquer momento vamos cair, mas não conseguimos parar e a lama faz-nos escorregar e a velocidade aumenta e já não queremos parar e parece que estamos quase quase quase a cair e os nossos pés não tocam no chão e é essa vertigem que desafia as leis da gravidade e esse momento da corrida ladeira abaixo que parece que dura meses, horas, nanosegundos de adrenalina e essa vontade de chegar ao fim da descida, caindo ou não caindo, estatelando-se ao comprido ou não. Quando ele pensa nela, é essa a vertigem na barriga, a mesma respiração, presa entre o peito, como se estivesse a cair durante todo um dia.
Noutro tempo, noutro lugar tudo seria fácil, como se isso pudesse ser escolhido. Se calhar até com outras vidas, com outros trabalhos, amigos, cargos e carros. com outra vida, com outros tempos, noutros termos. O que pode ser escolhido, nesta altura, é (e só isso e nada mais) se,a seguir a dar este passo com o pé direito, dorido e inchado, posso podes, dar o passo esquerdo. Quando me apercebo, a mecânica do andar escolheu por mim ti, estando já esse calcanhar a empurrar o mundo para trás, criando o atrito suficiente para a tracção (atracção) funcionar. E ando. O que se pode escolher não é o sítio, o tempo ou o lugar. simplesmente, se posso, podes, podemos, ter o poder de sermos intérpretes no que está para acontecer. Que nenhum saberá o que será, ainda. Eu caminho, corro, coxeio, salto nessa direcção. Sem saber porquê mas sem o questionar.
A chuva miúdinha que caiu lá atrás parece um dilúvio de proporções bíblicas comparada com a confortável luz que ainda me encandeia no caminho que surgiu mesmo à minha frente.
O preço de ter ofertado demasiado tempo, mais que o necessário, mais do que o saudável foi esta vontade, surgida da necessidade de o utilizar egoísticamente. Tal como a minha dor, que é só minha e que ninguém compreende. E fodam-se quem vem com aquelas palavras comezinhas, de peninhas e compaixõezinhas, com os olhares vazios de sentimento, pregando o sermão repetido pela cultura popular, dizendo-me que já era a altura de a deixar ir, que já estava no seu tempo. O seu tempo era o MEU tempo! e se o tempo dela chegou, também o meu teria chegado. Deveria ter chegado e não chegou. Devia a alma, a mente, o centro coordenador de emoções, o id, o ego, o que lhe queiram chamar, devia ser programado a desligar essa formatação quando alguém morre. Se morreu, todas as minhas memórias dela e com ela deveriam morrer, também, com ela. Formatação de disco, apagar a pasta, reciclagem esvaziada. E todo um tempo vazio à frente, à espera de ser preenchido com outra pessoa. ou comigo, ou com ninguém. ou com colecções de rótulos e caricas, de saltos-livres e pesca artesanal, de passeios pelo jardim e jogos de sueca ou qualquer outra idiotice sugerida por esta gente de olhos vazios, que não sabem que a transporto comigo, até ao fim do meu tempo, sem nunca a passar para ninguém.
As personagens ganharam uma nova casa. A difícil fase das mudanças, de palavras e bagagens, para o livro da sua história (moinho de vento que não me cansarei de combater) terá que ser iniciada rapidamente. E, parte mais difícil desta transição oferecida ("caída do céu" é expressão tão fácil de usar para a definir mas tão cliché que, como as cartas de amor do outro, é tão ridícula que tem que ser utilizada), essa mudança será feita ordenadamente e com alma, com uma rigidez soviética e um romantismo francês, com trabalho e organização, raiva e tempo, tempo,tempo,tempo e atenção. Com vontade de usar a nova casa, irei juntá-las, as personagens, com palavras e bagagens e, tijolo sobre tijolo, página sobre página. irão encontrar um sentido. Afinal, este trabalho também liberta.
(mas eu sou tão desorganizado com a vida delas)
Trauteei aquela repetição e dei-me ao luxo de lhe juntar umas côres, das minhas. só o fiz porque ninguém me estava a ouvir. Toda a gente que conheço pensa que me conhece mas, na verdade, ignoram que eu pinto músicas. Sobretudo as que não estou a ouvir, pelos menos, que não estão, naquela altura, a ser ouvidas por mim. Os sons mântricos, internos, infernos, aqui dentro da minha cabeça, começam como começou o mundo dos outros. E à palavra, juntam-se os coros infernais, as tubas deformadas, as cordas estouradas. e a forma, no pensamento disforme, é esclarecida com a luz dos metais e com o cheiro das madeiras. ribombam os tambores com o metrónomo cardíaco e está lançado um novo mundo. que vai voltar à palavra, agora com outra côr, com outro feitio e com o tempo que, entretanto, já foi repetido. com outras côres, mas repetido. com outra frase, mas repetida. No fim, tudo é diferente. Quando, passado uns dias, umas horas, uns segundos, quando, depois de a teres precipitado para uma apoteose wagneriana, eis que, lá dentro (cá dentro) surge a inevitável repetição, disfarçadamente e de mansinho... Então, junto-lhe as outras côres, que já sabemos que irão ser as mesmas. Porque, no fundo, e por muito desconjuntada, alterada, violada, lambida, mastigada e reciclada, sei que será sempre a mesma música. Aquela a que junto côres quando ninguém me vê. a que finjo não saber que é a mesma.
será uma cirurgia delicada, esta de tentar remover a bala que disparei contra o meu pé. ossos bem espalhados em migalhas, infecções purulentas que se podem formar de um minuto para o outro, tudo contra a corrida a que me predispus fazer. Coxeio até onde conseguir coxear e faço das fraquezas forças, mais uma vez. valerá a pena correr? quando chegar ao fim (ou cair para o lado), logo saberei. Agora, ainda o faço com mais força.
há uma obrigação, mas das que vem de dentro, das que não conseguimos controlar. sinto-me bem por saber que, todos os dias, tenho um tema novo para ser tocado em concertos de uma pessoa só, apesar das mãos se multiplicarem pelo número de personagens que vivo (e não as vivemos todos?). força-me a despejar as coisas boas e coisas más para começar o compasso seguinte, a virar a página do caderno e a ver a próxima, novinha em folha, com tanto para ser escrito, com tanto para ser ouvido. sem arte nem engenho, com pressa e pouca ou nenhuma preocupação. talvez por isso sejam coisas "umbiguista", centradas na única coisa que vou levar desta vida. mas é que eu gosto tanto do meu umbigo...
(obrigadinho ao senhor das artes, soube bem)
PS: e o cabrão do Aguiar não consegue fazer uma porra de um discurso coerente à aldeia!!!! IRRA!!!!
cansaço, de pálpebras pesadas e olhos vermelhos. pensamentos que soluçam para dentro do copo de uma qualquer bebida aqui à mão, mas ainda sem conseguirem atingir a razão. sinto que outra cabeça paira sobre a minha cabeça, esta última inchada, inflada de sangue que não repousa. e tudo isso desaparece, de um minuto para o outro. este torpor magnífico anestesia-me. devias ser real.
mas assim, se os viveste, adormecido, terás vivido? ou pairaste sobre eles?ou terão sido vividos pelo tempo dos outros, tendo o teu tempo, a tua medida sido supensa como estátua de praceta? é que as estátuas, imóveis, vêm a vida a passar, quando os pombos lhes sujam a fronte, quando os bronzes enferrujam e espalham verdete pelo mármore.
a viver pelo tempo presente, aguiar estaria pela hora da morte. mas no seu tempo, ainda agora tinha começado a viver, tinha depreendido que, o que ele tinha passado não seria igual para todos. seriam eles mais, logo mais fortes, mas o seu tempo era dele. todos os dias..
Não lhe pareceu justo que o miúdo a levasse assim pela mão e, pior, ela ir. e virar-se para trás, vendo que aguiar a observava. a cabra. ainda para mais ela, que parecia a única que o acompanhava no tempo alternativo, no viver que a vida da vila lhe consumiu mas, e sobretudo nesse, no viver que ele tinha criado com ela. o tempo não voltaria atrás, fosse o dela ou o dele.
não to diria.
estas paredes, atrás das quais te escrevo, são vetustas muralhas, de rigor medieval
que atravessam velhos campos de batalhas, sangues e ódios, pulsões e desesperos
e não se destroem assim, de um momento para o outro.
(mas pedra a pedra, linha a linha, elas estão a cair e a culpa tem de ser de alguém. e é tão fácil que seja tua)
Surpreendes-te por eu saber o que é o Método, mas não pratico o dito de dar o dito por não dito, de saber sem contar. Amanhã, ou hoje, cá te espero, o tempo que for preciso. Porque, conhecendo o Método, também me surpreendes. E deixar passar isso em branco, desorganiza-me as ideias.
Deixei de metodizar, como já não fazia desde que arrumei na prateleira organizada por sistema de cores, alfabeticamente sentida, a última magazin de planos falhados e actores frustrados de um filme que só acaba quando não estiver à espera.
Por isso, espero mais um dia, e Outro. Mas preparo, sem pensar nisso, o plano de cena para amanhã.
hoje magooei um dedo, como já fiz muitas vezes. umas vezes é um vizinho ou outro deste dedo, mas hoje foi este dedo. este, aqui, estás a ver? não ofendo ninguém por ter um dedo magoado, pois não? é que me dói à brava e não o consigo mexer, fica para aqui espetado, estático e rígido. E tinha que ser mesmo hoje, quando me decidi a ser sociável.
Segunda-feira é um bom dia para receber elogios. Aliás, devia ser à segunda feira que guardávamos aquela palavra de encorajamento, aquela palmada nas costas, aquele elogio à equipa de futebol preferida dos outros. Diziamos tudo à segunda-feira e despachávamos o assunto. Ouvíamos e agradecíamos. Para quem tecia considerações positivas,sobre outrém, o trabalho seria, forçosamente, mais complicado, visto ter que que compilar os elogios da semana para debitá-los ao fim dum dia. Mas não é nada que, com organização e disponibilidade mental, não se faça. Aliás, um dia destes, até pode ser que lhe elogiem o meticuloso trabalho de indexação de elogios e elogiados.
A música tem destas coisas. As Músicas, temas, grandes temas, na maior parte das vezes, não têm que ter brilhantes poemas a adornar acordes dominantes e escalas dóricas, perfeitas e afinadas.
- Olá, eu sou o Augusto e sou melómano.-
Desde que me lembro, que tenho música ao meu lado. As minhas lembranças mais antigas são, na sua maioria, sempre associadas a temas ou álbuns (sim, eu digo álbuns)específicos. Mesmo que, mais tarde, o tempo se tenha encarregado de escolher a melhor banda sonora para esse momento que, e ao contrário da música, não pode ser repetido carregando no botão que corresponde ao repeat..
A Música é o minha paixão e foi, muitas vezes, o que me fez acordar de marasmos. Ou adormecer em repouso.Também já foi acusada de ser minha amante, já foi acusada de ser um vício. Já me aturou muito e eu a ela. mas sempre me foi fiel. Há coisas que não se explicam, só se sentem. E devo-lhe a minha vida.
Justifico assim a minha escolha para o dia de hoje. Para mim, é um dos temas mais bonitos de Black Sabbath, não por ser bem cantado (Ozzy Osbourne no seu característico tom de buzina de porto), melodicamente complexo (é tão simples, mas tão simples) ou liricamente por aí além (traduzindo livremente, " sinto-me infleiz, sinto-me tão triste, perdi o melhor amigo que alguma vez tive, ela era a minha mulher, amava-a tanto, mas já é tarde, deixei-a andar - brilhante, Sir Ozzy). É uma música que está ligada, oficialmente, e a partir de hoje, ao resto da minha vida.
Só porque hoje voltei ao trabalho. Também porque mudei hoje a minha vida. E sinto-me muito bem.
(é claro que, depois deste tema, aumento o volume e vou fazer head banging pela casa fora...)
Acordas com a conversa ao telefone, saltitante. O disco já veio a meio e o Lou Reed canta, infantilmente, uma história de coscuvilhice urbana, logo de culto, não fosse ele o Lou Reed.
Levantas-te na faixa seguinte, com os espasmos deste mau exemplo de liberdade, conceito que tu alteraste com o tempo. Lembras-te da primeira vez que ouviste este álbum. Apesar de te continuares a sentir insatisfeito com os mesquinhos aspectos da vida quotidiana e com os objectivos perdidos para as mudanças, e porque nunca te sentirás plenamente satisfeito. Está na tua natureza. Senhoras das cartas astrais, vá de deitar cartas e atribuir esse estado de alma, palavra atirada fora por falta de melhor definição ou arte de quem o tenta descrever, esse destino da alma, se preferirem, aos astros.
Os doutores de papel passado acrescentam dores físicas ou psicológicas, tormentos amplificados. Atribuiste isso à vida que aí vem. Aceitas a sugestão da decadente cantiga de embalar enquanto colocas a agulha de volta à primeira faixa do disco.
que se eu quisesse medir, teriam que pensar numa outra unidade de medida. só para quantificar o inqualificável. para preencher o teu .vácuo
absorto.
o normal.
absurdo.
é quase tão absurdo como discutires apoios fiduciários enquanto escreves a tua vida dentro da tua mente, como tu fazes todos os dias. Sobreviveram-te os pólos, energia alternada em duvidosos estabelecimentos onde se vendem os agasalhos para o calor que não lhes dão em casa, pobres diabos.
olhos secos de lágrimas inchadas, guardados em anos da prisão de são lado nenhum. Outro lado,
figuras esbeltas de carne e carbono, conteúdo vão e tábua rasa de interesses fúteis e ouvidos tapados à canção que te deram quando nasceste.
saltas
do canto onte te sentas todas as noites, apagas o cigarro com a certeza de quem muda de vício, percorres os olhos pelos adornos dos corpos de quem te vai mudar a vida, paras no menos mau, aposta segura, como a sua mulher pensou um dia. soltas um gás disfarçado pela tua presença de rainha. abordas e arriscas, distante e afável, és voz rouca de tabaco e álcool martelado.
...
voltas à cama, à da tua cama, vês o sangue ensopar o linho e poliester, lençol branco, pureza única da tua vida, fabricada por mãos infantis.
sentes frio no meio do delírio, tapas o corpo frio e soltas um suspiro (primeiro gesto real de uma vida de mau romance, onde és uma personagem secundária prestes a ser engolida pela história quand ainda nem chegaste ao segundo capítulo)
ninguém te vai escrever, não passas de uma história de amigos bêbados a medirem-se, foste uma cara bonita - "és bonita demais para estar aqui" - que não vais alcançar o rodapé.
ou dormes ou morres. ou então, vives, já não percebes
a
diferença
quando o tempo passa, passa mesmo ao teu lado´, como quem diz que a estrada passa aqui
quando, afinal, a estrada é estática -estrática?- e tal e qual é o tempo que passa como uma estrada
aqui
mesmo ao teu lado.
(encheste o copo, até meio, de sangue com um single malt, dos caros,
ainda viste o copo meio cheio, reparaste?, prontamente sorvidos de um gole só.
Optimisticamente, suicidaste-te, irão encontrar-te mais tarde e vão ver aquilo em que te tornaste no princípio da estrada e do tempo, pedaço de carne, envolto em sangue.
tranquila ira de vida desperdiçada - vai ser uma pena- anglicamente, a treat for their eyes, quando te encontrarem,os tarados.
Respira.
não consegues?
é agora.
não valeu a pena, ainda pedes desculpa sem conseguir dirigir o perdão. desculpas-te a ti própria e morres.
(a velho no público não se apercebeu que morreste e manifesta-se ruidosamente contra a imagem dos pêlos púbicos envoltos em sangue - afasta-se maldisposta, vomitando à porta do teatro, mesmo antes de entrar no convenientemente colocado táxi.
Nessa noite, ao deitar-se, pensou que deveria ter sido ela puta)
well, was it worth it?
was it materialistic enough to be a bastard or
you had reasons for being an arse's hole?
It's just because
I broke my hand, once again,
against someone else's ideals.
wrap it up while
the fight continues
and pain is still a gain.
An assumed risk for a suicidal clown
is to go onstage
wearing nothing but a frown.
______
Maybe he was a troublemaker
that made people laugh while
stealing their will
which he kept
in his
confy backpack.
__________________
(sometimes the wrong idea was passed, just because no idea was being passed at all)
Roamin doorsteps of the next bar, it was just another pitstop to be throwned out from.
Bourbon was being mixed with someone's blood and I didn't wanted to know whose' from.
old lolitas pleasure themselves with some strangers eyes and the their wives felt appaled with the new sight.
(maybe it was more complex but, from my barstool, you would find it quite simple)
...and this weird machine
built inside of me
and it triggers
and I don't know how to stop
it
a killer device
that runs free in my mind
that i cant control
that it's not of this world
Produzimos as certezas apoiadas na demanda do consumo.
Importas a novidade pelas erradas verdades, com o acrécimo do imposto de valor adquirido pela razão.
Transportamos a quantidade encomendada pelo arrojo duma inevitável acção, perfeitamente errada no fundo e na decisão.
Consumimos e libertamos, ao pontapé, arquivos de memórias presas na mente inconsciente.
Abertas as discussões, aprecia-se, num instante, a folia do momento.
You took my kisses and all my love
You taught me how to care
Am I to be just remnant of a one side love affair
All you took
I gladly gave
There is nothing left for me to save
All of me
Why not take all of me
Cant you see
Im no good without you
Take my lips
I want to loose them
Take my arms
Ill never use them
Your goodbye left me with eyes that cry
How can I go on dear without you
You took the part that once was my heart
So why not take all of me
Entre mentes, entre tanto, entre vistas, entre prantos.
Entre, se faz favor, para o tirar deste lugar.
Saw a great white shark while he was nibbling my feet.
Politely asked him what he wanted. no answer
so I kicked him on the teeth
while he walked away, all the way down my throath, I asked myself what did he wanted and when would he'll be back for more.
A sorte madrasta nunca teve um filho.Tinha sido enjeitada pelos homens e pelo azar, sem que ninguém lhe tivesse pegado para a fazer feliz. Sendo filha única da Vida e do Acaso, nem sequer lhe poderiam dizer que ia ficar para tia. Restava-lhe, apenas, ser a mãe daqueles que, por se desviarem das suas trajectórias, lhe iam parar à porta pedindo um pouco de pão, de calor ou de alento. A sorte, madrasta, lá os aconchegava com uma malga de sopa quente e histórias da vida de outros que por lá já tinham parado. Já aquecidos e sossegados, os descansados adormeciam no seu regaço e eram prontamente sufocados por um amor que os impedia de respirar ou de lutar pela vida.
mecanicamente,
levar as mãos à cara
aperceber-me que estou vivo
ritualizar o tempo decorrido
desde o último suspiro
que me lembro
até ao último do dia
para depois o viver
como se fosse outro dia
quando, de facto,
é o mesmo dia
outra vez
um dia
roubei-te um beijo, sem romantismos nem borboletas
a circundar umas escadas urbanas, depressivas,
de paredes pintadas
roubei-to, imaginando que mo darias, mesmo
que não to pedisse
Fosse tudo tão fácil como esse beijo
e ainda hoje te beijaria
Pensámos que sendo um para o outro
ainda nos agradaríamos mais
Quando tudo o que precisávamos
era saber roubar beijos um do outro
Sem esquecer porque é que os
queríamos guardar
só para nós
quero rachar-te a cabeça ao meio
e procurar aquilo que perdeste
ou que não queres encontrar
quero esmurrar os muros e paredes
até desabarem em pó
quero abrir-te a alma
como o meu peito está aberto
quero sofrer-te, viver-te, respirar-te
outra vez
e outra
quero aprender a não ser
bestial quando o instinto
me leva a ser louco por ti
quero deixar de querer
e voltar a ser o louco por ti
pulmões abertos em união, numa comunhão de farsas
em que os gritos vociferados deixam de fazer sentido
tornando-se em mantras populares, com direito a saltos
comunitários
Deixem-me ser o que sou, se isso implica deixar de ser
Lidas à itaiana,com ênfase nas sílabas roladas,
como se a forma conseguisse emprestar alguma dignidade
ao que foi dito entre duas vontades
Lentamente, o cerco foi declarado, acto de guerra indiferente à situação do indigente país em que se tornou a minha mente. As povoações em pânico soltam gases de pavor enquanto sulfurosos gritos engasgam gargantas tapadas. Soltaram-se as feras dentro da jaula, famintas de vontades.
porque sou fraco e caio em tentação
e informo-me
porque não consigo deixar de pensar
e repensar (e odeio pensar)
porque não consigo deixar de olhar para o buraco que há bem dentro de mim
(onde tu cabes na perfeição)
e ando aos encontrões
sabendo que o rumo não era impossível de descobrir
porque estou magoado
por andares em frente
(de olhos vendados)
quando eu, o eterno eu,
nunca soube andar contigo sem ser
de lado
porque te desejo, neste momento, com toda a gana
que te façam passar por toda a mágoa do mundo
para poder esperar que, um dia, caias em ti
e, inevitavelmente, em mim
porque esta pausa será eterna
Balança a pança
com bonomia,
olha-te de lado,
na indecisão
de te dar a mão
na desconjuntada
terapia da dança
da razão.
De resto, tremo consideravelmente de há uns meses para cá.
Sempre que bocejo, e agora bocejo constantemente, sinto um formigueiro nos braços. Os dentes, que ainda rangem durante a noite, tornam-se insensíveis aos eléctricos espasmos que me percorrem a espinha dorsal.
O equilíbrio,
já de si instável,
consegue ser ainda mais vertiginoso, sentindo por vezes que me falta
o chão
por baixo dos pés.
Ao fixar as letras no monitor, ou qualquer outro ponto que esteja em qualquer outro lugar, na parede, no chão, no ar, desisto do resto do mundo e ignoro-o.
Perco horas de vida a fixar o momento.
Força de ti
Revolve, remexe, empurra, sopra,
transtorna, magoa, destrói, aparta,
pisoteia e calca as vontades reais
como um cigarro aceso que foi atirado
contra o chão molhado
e que não precisa de ajuda
para se apagar.
E agora para quem não quero
que sei que me lêem
mas que nunca chegarão
aquilo que eu já fui.
PUTA QUE VOS PARIU. E Putas há muitas. Mas às putas que escrevo são putas indirectas. São as putas que recebem o dinheiro para foder a vida dos outros. Os outros já vos conhecem, filhos (e filhas) da puta. Os outros sabem que vocês sabem. O que vocês, filhos da puta (sem menosprezo pela secular profissão, mas apostado no carácter insultuoso mais baixo, o único que vocês, padrões morais da putaria), conhecem. O que vocês nunca entenderão, grandessíssimos filhos de uma cabra tinhosa, é que os outros se estão a cagar (espalhando as fezes pelas vossas sorridentes caras) para aquilo que vocês, inúteis vermes, pensam. E quando pensam, se é que pensam, pensam dentro dos pequenos moldes em que as vossas cabecinhas foram apertadas. Como se enfiadas à nascença num torno manual, às vossas cabeças, ideias, nunca vos foi permitido pensar. Tenho pena de vocês. Como se fossem cães leprosos que sobreviveram a um atropelo que poderia ser mortal, mas vos deixou sequelas de sociabilidade. Não vos odeio, simplesmente não vos reconheço valor. Filhos da puta, energúmenos tarados, que se exprimem por falsos padrões morais mas que, ao fim e ao cabo, são espremidos por esses mesmos limites. Limitados. Tenho tanta pena de vocês todos, pedaços de fel antropomórficos. O vosso sentido de certeza e a vossa clareza de pensamentos é como uma lente suja, cheia de esperma ressequido que já percorreu o circuito interno do corpo, entrando-vos pelo ânus e saindo, em forma de palavras, pela boca, deixando uma crosta seca no canto do lábio inferior. Hoje defeco, do alto de um décimo terceiro andar, para as vossas bocas abertas em gargalhadas, cá em baixo. E vocês, que riem, comem merda sem se aperceber. E à vossa capacidade energúmena não vos estende para além do mundo tacanho, imbecil, autosuficente, como amebas de onã. Dou-vos exactamente aquilo que vocês querem. O pior é que vocês, imbecis escatológicos, não se apercebem que vocês é que são os estranhos que comem a merda que vos deixo, lambendo os beiços em ignorante deleite. As mesmas gargalhadas que só demonstram que o torno estava oleado e que a vossa mente é quase tão pequena como as personalidade que mimificam, sem nunca as terem, sequer, compreendido. Sorrio-vos enquanto cago, bem de alto, para vocês. Que seja como os burros, então. Prefiro ser um burro esforçado que vos enche a vida de significado do que uma pobre desculpa de enzimas e esqueleto humano. Burros sois vós que nem sequer se apercebem da dimensão da vossa imbecilidade.
Espero sinceramente que gostem das minhas merdas. Haverá sempre, e só para vocês, um troço especial. Lambuzem-se como se não houvesse amanhã. Ao menos, têm uma razão para se esquecerem da pequenez das vossas vidas.
Como tu sabes ser, às vezes oiço-me a pensar...
(mas tu imaginas, hoje, as dificuldades que estou a ter para acertar nas letras do teclado...)
Como tu sabes o que eu sou, mesmo assim, n imaginas o que eu SOU.
(como eu não sei aquilo que fui, mas muito menos imagino aquio que posso ser. Consigo imaginar quilo que serei.Por favor, não é isso que quero)
Como ninguém sabe quem sou
(mesmo que alguém, que me conhece desde que me viu virgem ao Todo, não faça noçao. daquilo que eu realmente sou. Quase tão pouca noção de mim como aquela que eu tenho)
Mesmo que eu não saiba o que é isto...
"Isto" é o mesmo que o "aquilo". "Aquilo" enquanto "coisa física" que. quotidianamente. se vê despojada de um qualquer ideal que, mais que o comunitário e institucionalizado, é o pessoal. O MEU.
O tal que me olha no espelho e se enche de perguntas banais sobre o que quer que seja que eu veja neste momento...
Hoje aproveito que tu (e TU TENS UMA LETRA GRANDE SÓ PARA TI) também me leias.
Sem ideais preconcebidas e com ecursos esilísticos amadores.
Atravessa as linhas e tenta, um dia (breve, que seja) perceber porque o irei fazer. A minha vida já foi, por demasiado tempo, a vida que não foi a tua. Nem que o tenha sido só para mim. Quanto te surpreender (e vou-te surpreender, porque só depois tudo isto te irá fazer sentido), lembra-te duma noite. Específica para mim, casual para ti, Uma noite em que, pelo gozo de podermos cantar em coro, dentro daquele carro (o tal que me poderia ter tirado a vida sem nos termos apercebido disso), cantámos uma música que, de tão foleira, se tornou o meu hino contigo. (tu nos agudos e eu nos graves - apesar do meu falsetto ser melhor que o teu e, mesmo assim, tu insistires nele. Eu era criança, os meus agudos -a naturalmente - seriam mais certos que os teus).
Peço-te que não me julgues - não tens, de todo, esse direito - mas peço-te que me compreendas como só tu o poderás compreender.
Sim, sei que vou aturar a conversa moralista e cinquagenária (quinquagenária? ou será mesmo quim quagenária? ah, e desculpa a expressão temporal desadequada ao estilo, mas temos que chamar o tempo pelos seus nomes).
Não me peças explicações enquanto não te der decisões.
Mas quando decidir, faz o teu papel, mas peço-te que não me julgues. Faz o teu papel como eu já fiz mais do que o meu. (a chantagem aprendi-a com a minha outra raíz e, para o bem e para o mal, é aquilo em que me tornei..).
Em jeito de despedida (precoce, muito precoce, porque egoísticamente, quero que me deixes de te ver antes de eu não te conseguir sentir ao meu lado, fortaleza invicta assente em ilusões e pés de barro), peço-te perdão por nunca ter sido aquilo que eu sei que alguma vez eu poderia ter sido para ti. Mas peço-te que não me julgues por aquilo que eu ainda não sei o que posso ser para mim.
A nossa vída, meu Pai (e agora assumo-o com todas as letras e sentidos que esta expressão alguma vez teve e terá), foi atípica. Hoje, não queria que fosse de outra forma. Obrigado por compreenderes (ou, assumidamente aturares) o que eu sou. Mas não me peças nunca mais aquilo que eu poderei vir, ou não, a ser. Deixa-me ser. Sei que posso vorrer o risco de dar um trambolhão, parir o nariz contra o chão, magoar-me, ser carne mole contra a parede. Mas sou eu (EU) que o estou a fazer. Sei que me será difícil, senão impossível, fazê-lo sem tu o compreenderes. Mas, se não fores tu a compreender, mais ninguém compreenderá. Amo-te do fundo do meu coração e espero que um dia o meu (sim, um rapaz, inteligente como o avô) te reconheça como tal. Mas hoje, por favor, deixa-me saltar. Deixa-me não ver o que está à minha frente, não ouvir expectativas, ser aquilo que sou.
Peço-te para que, quando me arrepender (e espero que nunca seja preciso) tu sejas a minha parte madura, a parte que não me diga "eu avisei-te" mas que me digas "e agora, para levantar, o que é preciso?" e me deixes a pensar nisso. Sabes que sou menino. Têm sido os dias (e já é TARDE) em que preciso de ser homem. E, não me fodas, tu quiseste fazer o mesmo.Não duvido e acho que, se me disseres o contrário, mentes-me.
Pior do que isso, mentes-te a ti próprio.
E não há nada pior do que enganarmos o nosso passado reescreveendo-o. Detesto escrever por metáforas, mas não o consigo fazer doutra forma. É a minha única maneira de escrever. Pode ser que um dia, lendo-me, me consigas interpretar como consegues interpretar os que lês para o teu mester (duvidei entre mester e mister, mas mister soa a treinador do Montagraço FC e mester soa, quando lido, a um qualquer estrangeirismo.. Tenho que ler mais clássicos portugueses).
Desculpa não escrever com a mesma velocidade a que penso mas o que penso, espero eu, vale mais do que aqulo que alguma vez escreverei.
Quero ter essa oportunidade. De lutar. com já tive há 8 anos, e resultou. Pode ser que desta resulte melhor. Ou não. Só o saberei mais tarde.
Se tens confiança nessas tais capacidades que tu (vocês os 2) me reconhecem todos os dias e que vêem a ser desperdiçadas, apoia-me. Sei que é egoísta. Não o nego.
Mas preciso de saber que, um dia, quando eu "chutar o balde" por não conseguir viver mais com aquilo em que vocês me tornara enquanto homem adulto (e ainda bem, tão bem, que o fizeram), que vocês fariam como eu faria ao meu filho.
Adoro-te do fundo do meu coração, com toda a lamechice daí inerente. Hás de (ou como se diz por aqui, "hádes") ter 100 anos e eu deitar-te-ei a língua de fora. Tu vais saber o que eu te quero dizer. Não espero mais do que uma reacção paternal. A tua lingua, imberbe e centenáriam pra fora da tua boca com dentes a fingir ;)
(desculpa a linguagem mal cuidada e os erros de ortografia e de concordâncias e etc., as letras "comidas" e "cortadas".` Não sei se sabes, mas só escrevo enquanto penso. Se penso no que vou escrever, nunca escrevo o que já pensei)
PS: não me venhas com merdas de conversa de avôzinho. Contigo (ou sem "tigo"), a minha decisão está tomada, Preferiria que a compreendesses. É que, se não fores tu, só eu a vou compreender, Falamos melhor no futuro.
a euforia da nova criação
repetida até à exaustão
provou que a dúvida seria constante,
apesar das endofirnas espirradas
em nuvens de azul
com o tempo independente,
em compassos delineados
pelo matemático remate da madeira contra o aro
dessa linha saltitante onde penduro os meus metais,
seca o suor húmido da apatia
transformada em agressão.
Mas os tempos delimitados
eas danças independentes
só vêm dar força ao que nao te faz sentido.
pela energia que gastas e
pelo tempo que perdes
consegues olhar em volta
e iludir um final feliz.
o ovo cozido que se sentou no muro
(porque sabia que, se caísse, não se partia)
esticou o dedo médio para fora da casca
para que. quando apodrecesse
se soubesse porque é que tinha
saltado para fora da panela
Quando fiz a mudança? Quando foi aquele momento? Será que houve sequer, um momento? Ou terá sido a sequência de tempos, uns mais seguidos do que os outros e que, por acaso, foram vividos pela mesma física pessoa?
Não se pode pensar uma mudança. Posso pensar em fazê-la, sonhá-la, imaginá-la, desejá-la. Mas só acontece quando é feita, de facto. E acontece, de um momento para o outro. Como ela me disse, com voz de mulher séria e a menina dentro dela, chutar o balde. Ri-me. Tirar o apoio, sentir o pé a fugir, saber que dependes de ti e da tua força. Da tua vontade. Saber o que é importante e o que é irrelevante. Partir a cana do nariz ao descobrir.
"It’s all about the journey". O destino é secundário e garantido. Se lá chegares, e de certeza que vais lá chegar, tanto melhor. Mas não te vais sentir satisfeito no “objectivo cumprido”. Será sempre no caminho até lá. Espero eu.
O que realmente me fode são as expectativas. Desde que me passaram, inconscientemente, penso eu, fasquias, limites, metas. Nunca me perguntaram se eu os queria, de facto, passar. Esses objectivos. Será que alguma vez pensei de facto nos meus objectivos. Bem dito, será que alguma vez os tive? Os clássicos, acho que não. White picket fence, feliciddae através de um meio digno, acomodado, aconchegado, mesmo que seja esforçado. Esforçar pelo objectivo de outrem. Fodam-se. Não é isso que quero, pois não? Ou será que me fartei (só) de viver bem, sem saber que o estou a fazer?
Já não seria a primeira vez. Mulheres. E a mulher. A tal das tais, pela qual alterei parte da minha vida e abdiquei de coisas que não eram (descobri mais tarde, talvez demasiado? acho que não.) tão importantes. Futilidades. Forçadas amizades fúteis. É tudo a mesma coisa.
Mas a mudança é inevitável. Urge. Sanidade depende disso. Não estou para me tornar naquilo que sou hoje, mas elevado à potência da estagnação. Do paúl ao deserto, basta a minha inacção. E essa acompanha-me nervosamente, mesmo ao lado das expectativas dos outros, elevadas até à minha surdez. Não sou nem nunca serei aquilo que esperam de mim. E ainda bem. Serei aquilo que irei ser, melhor. Nos meus termos, nas minhas condições que, até são bem simples. Assim que as descobrir, claro.
Vamos. Um dia destes. Deixa-me hoje, na ressaca do acontecimento, no fim de um livro (o indicado, sem saber que assim o era), pensar no que seria ser o que realmente sou. Como fui contigo, sem saber que me revia naquilo que tinhas feito.
Ou de que precisava de uma desculpa para o fazer. Como sempre. Aliás, será possível agir por impulso. Hoje ia agindo, batia com a porta. Mais uma vez, ouvi que as expectativas que os outros (e desta vez, os outros têm uma letra minúscula, escrita assim, outros) tinham sobre mim, tinham sido frustradas. Uma parte de mim sentiu-se feliz (ia escrever "estranhamente feliz" mas não tenho necessidade de me mentir). Estaria absoluta e totalmente a cagar para as expectativas que têm em mim, logo só tenho que me sentir bem comigo. Não respeito os outros o suficiente para que me exijam ser aquilo que não sou – benvindo ao mundo real, dirão os que me conhecem ou que já cá andam nisto há mais tempo que eu. Alguns até o dirão cinicamente, invejosos do que tenho. Eles que não se esqueçam que o que tenho não me foi dado, foi suado e conquistado contra o pior dos meus inimigo, talvez até o único, que sou eu próprio.
Sim, senti-me bem por ouvir que não estava a cumprir o objectivo de me tornar carneiro no rebanho para a tosquia. E daí até ao objectivo final (o deles) vai um passo.
Ignorantes, burros.
Essas expectativas subiram-me à cabeça, não as soube interpretar como aquilo que de facto são, incentivos?
O valor que hoje me reconhecem será parte daquilo que ainda poderei vir a ser?
Não sei.
Mas tenho de o descobrir. E tem de ser já. Agora. Seja como for. Sei que vai ser impulsivo.
Como tudo aquilo que já me fez mudar. Para o bem e para o mal.
sugeri um dia que o começasses de noite
como se fosses obrigado a olhar sem ver
como se a luz te ofuscasse e o ébrio negrume te fosse dar algum prazer
como se te tornasses no teu antitético ser.
(como se algum dia o conseguisses fazer...)
Trauteei o tema recorrente
despachei o serviço de carácter urgente
libertei-me da redoma onde estava fechado
este ar magova-me os pulmões em cada nova baforada
por não estar habituado a ter tanto espaço à minha volta
Obviamente, fumei um cigarro enquanto brindava à nova liberdade.
De forma disforme, entre dois dedos de conversa, olhei bem fundo para ti.
Aconteceu quando o Silêncio chegou e se sentou connosco à mesa. Tinha andado adormecido, desaparecido há umas horas e nem reparámos na sua ausência.
Mas quando acordou, talvez influenciado pelo divagar saltitante do diálogo, entusiasmou.se. E quanto mais seguíamos, bamboleando em ébrios devaneios de planos e histórias, mais o invejoso se chegava.
Senti que queria, à força, participar. O grande invejoso, queria fazer parte de nós.
Ignorei-o e olhei bem fundo para ti.
Sem querer, calámo-nos.
Era um Silêncio incómodo...
Foram exemplos flagrantes de inconscientes coragens, como, aliás, todas as coragens são.
voltámos
todos nós, os outrora fracos.
desta vez, unidos numa só voz
voltámos.
movemo-nos, com a certeza da mudança
seja ela qual for, transformar-nos-á
Unidos
pela certeza da troca ou até mesmo da ausência
Pela volta espiral que começa a definir
a agulha da bússola
que irar parar a apontar para aquele lado
ou mesmo para o outro
E mesmo que não pare
vou para onde ela me mandar ir
Circulei e voltei à redoma, onde o apego material é constante.
A respiração, afoita na sobrevivência, aflita na inconstância
nunca foi suficiente para me oxigenar o sangue.