ele está apaixonado de novo. como se nunca tivesse tido antes, apesar de saber reconhecer os sintomas e a estupidificação natural que sofrem as pessoas que padecem desse estado. o próprio termo "apaixonado" dava-lhe vómitos até determinada altura. mas, quando ele fala com ela, todos os maneirismos, tom de voz, aquele sorriso estúpido na cara, todos os dados indicam que, claramente, está (blhék) "apaixonado". e depois, tentar definir por uma série curta de palavras é uma tarefa ingrata, sobretudo para quem está numa situação em que a sua própria inteligência é questionada. é que nunca, em condições normais, se fala com outra pessoa como se ela fosse uma criança e nós seus companheiros de recreio, a não ser que sejamos, efectivamente, crianças no recreio. e, mesmo assim, terão de ser crianças como nós fomos, porque as crianças de hoje são tudo menos crianças, parecendo-se uns mini-adultos, mas mais burrinhos (ou só com menos experiência de vida). mas são cínicas, falsas e más. mini-adultos, portanto. mas, apaixonados, entramos numa estupidez natural, numa inocência tal que, facilmente, damos o corpo ao manifesto, caímos alegremente e nem sequer notamos. vamos por uma encosta abaixo e começam-nos a falhar os pés e a qualquer momento vamos cair, mas não conseguimos parar e a lama faz-nos escorregar e a velocidade aumenta e já não queremos parar e parece que estamos quase quase quase a cair e os nossos pés não tocam no chão e é essa vertigem que desafia as leis da gravidade e esse momento da corrida ladeira abaixo que parece que dura meses, horas, nanosegundos de adrenalina e essa vontade de chegar ao fim da descida, caindo ou não caindo, estatelando-se ao comprido ou não. Quando ele pensa nela, é essa a vertigem na barriga, a mesma respiração, presa entre o peito, como se estivesse a cair durante todo um dia.